Na prática dos "anais do Facebook" (tsc, tsc, tsc) somos todos autossuficientes, seguros e equilibrados emocionalmente, além de sempre muito convictos de para onde estamos indo. Nunca erramos e, se o fazemos, vemos em todas as esquinas pessoas reconhecendo seus erros, com serenidade e comprometidas consigo mesmas para que não mais se repitam, convidando-nos e deixando-nos à vontade para fazermos o mesmo. Realmente, não! Minha ironia atingiu agora o nível High Stakes! 

É no dia a dia da nossa intimidade que somos surpreendidos pelo tanto de coisas que ainda temos que aprender individualmente e em sociedade para nos tornarmos melhores, não dependendo tanto da opinião dos nossos vizinhos ou vivendo de aparências para nos sentirmos bem. Está "tudo certo" quando falamos de maus hábitos em pessoas comuns (quer dizer, mais ou menos, né?), mas “jogadores de poker”, atletas mentais em geral, não são pessoas comuns, e suas oportunidades de melhoria pessoal quase sempre se tornam brechas ante o olhar atento de um concorrente mais competente e que queira vencê-lo, por mais que inicialmente isso não pareça tão lógico.

“Poker players” diferem das pessoas comuns em partes significativas da rotina e da essência. E atletas mentais de outras modalidades também precisam de uma outra visão de si e do mundo, para que conquistem o sucesso em longo prazo. Saúde aqui precisa ser levada realmente à sério! E não vou entrar em detalhes sobre isso nesse post ou mesmo polemizar sobre a eterna discussão sobre ser um “atleta mental” ou “mero jogador de baralho” no que se refere ao poker, até porque acredito que mesmo o mais recreativo dos players, quando submetido à testes, possuirá vantagem competitiva sobre alguém que não costuma exercitar a mente com jogos de competição e estratégia.

O fato é que jogadores de poker profissionais, semiprofissionais e mesmo amadores regulares estão continuamente se expondo nas mesas e colocando-se em situações de tomada de decisões sob pressão. Gerenciam riscos financeiros reais numa competitividade individual, que se dá em ambiente altamente social, tal qual a vida real, exigindo o máximo de seus cérebros, numa competição de alto nível e sensibilidade com outros cérebros, que teoricamente também estão afinados. Esse é o universo dos esportes da mente. É uma espécie de neurofitness de alto impacto pela profundidade com que rearranja as conexões neurais e ajuda a desenvolver habilidades cognitivas diversas e de forma lúdica.

No que diz respeito às diferenças entre players e pessoas comuns, neste post citarei especificamente os impactos que uma simples relação de namoro pode ter na vida de um jogador de modalidade qualquer, comparando com uma pessoa de rotina comum e praticada pela média das pessoas.

Vamos imaginar dois cenários da vida comum: um primeiro, com uma pessoa numa balada, que ao conhecer alguém só precisa preocupar-se com a química do casal; e um segundo, num ambiente mais sério, como trabalho ou faculdade, em que numa paquera a conversa gira em torno de afinidades em hábitos, filosofias e valores pessoais.

Para uma parte significativa de pessoas de hábitos comuns, poucos detalhes e alguma afinidade bastam para iniciar um envolvimento. Conviver é tudo o que se precisa! Para um jogador de poker ou outro atleta mental, se este é mesmo comprometido com seus resultados e com sua qualidade de vida (que impactará diretamente o seu desempenho nas mesas) é arriscado ser assim "tão simples" e objetivo no momento de encontrar um parceiro. Não basta conviver, tem que conviver bem!

Tudo bem que talvez não seja tão simples assim, mesmo para uma pessoa de rotina comum, mas o fato é que os players possuem muito mais coisas para preocupar-se antes de vencer a ansiedade do primeiro beijo. São sonhos de uma carreira vitoriosa em risco e quem o ama precisa entender. Quem não é player também deveria pensar um pouco assim.

Listo abaixo as três principais críticas que deveríamos nos fazer (sob meu ponto de vista) enquanto atletas mentais. Se você for apenas um recreativo, não precisa preocupar-se tanto com isso, mas sempre haverá o risco de ter que largar o poker ou mesmo outro hobby antes de mergulhar de cabeça numa nova relação.

1. Transparência: Qual a visão que o futuro parceiro tem dos esportes mentais, não só o xadrez, mas em especial o poker, o mais dinâmico e polêmico entre eles? O quanto a visão de vocês sobre o assunto está alinhada (expectativas x frustrações x resultados)? Há espaço para falar a verdade ou terá que jogar escondendo-se, condenando tudo ao fim e à frustração precocemente, ainda no início?

2. Racionalidade: O quanto elx confia em você para aguentar períodos de downswing e upswing, tão comuns na construção dos resultados? O quanto você confia nelx para falar sobre essas coisas sem desgastar seu ego ou a “tranquilidade” da relação? Qual o nível real de maturidade da relação para viver a experiência "amor de uma pessoa comum ao lado de um atleta mental"?

3. Compromisso: Emocionalmente, uma paixão nesse momento da sua vida será algo maravilhoso e oportuno, para tornar as experiências ainda mais ricas ou apenas um satisfazer de necessidades fisiológicas imediatas, que abrirão portas para cenários futuros de bastante desgaste – em resumo, mais um problema cotidiano em longo prazo?

Penso que negligenciar uma conversa muito sincera consigo sobre sua relação real com o esporte mental neste momento de sua vida e a saúde de sua relação sentimental, com base nesses 3 pilares de questionamento íntimo, é assumir um risco real de colocar não só a trajetória, mas a existência de toda uma carreira em risco. E os esportes mentais são esportes que, se nunca estamos velhos demais para praticar, exige-nos disciplina e essa visão em longo prazo para alcance dos resultados e bem estar que a prática proporciona.

Quanto tempo resistirá a relação sentimental de, por exemplo, um jogador de poker que precise preocupar-se com a hora de ir embora no meio de uma partida, ou com aonde estará no fim de uma noite? Se no clube de poker A, para onde saiu dizendo que ia, o B onde o lobby estava melhor naquela noite ou em um Home Game que fora convidado após cair de uma mesa em um dos clubes anteriores?

Se você disse que está “metendo fichas” é lá que deve estar na mente dx namoradx, porque sem confiança não dá! Pode ser lindx, oferecer o sexo mais fantástico das galáxias, mas não segurará a onda! Você vai ficar tiltado cedo ou tarde, seja na vida real ou nas mesas e vai complicar a vida de outras pessoas também!

Já pensou ter que "meter fichas" no cara mais forte do field local ou mesmo alguém que jogue “apenas” melhor que você, estando preocupado se ainda tem namoradx ou não depois do último sms recebido ou visualização do “Whatsapp”? Que bad, hein?!

Talvez seja por isso que tantos players optem por envolver-se entre si, porque só um jogador mesmo para entender a matemática "louca" do longo prazo no poker e saber que mesmo perdendo há mil jogos, algo comum com os grandes nomes, você de alguma forma ainda pode estar ganhando. Amores precisam ser “muito amores” para compreender como pode ser fluida a matemática do poker, inclusive dentro de uma mesma mão.

A maioria das paixões tenderá a descer da “balsa de sonhos” ainda na primeira esquina, logo quando descobrirem o “milagre do ponteiro grande chegando em 11” de hora em hora e a sentir o preconceito que ainda existe em nossa sociedade, começando quase sempre no seio familiar. E aqui tenho sorte, pois desde criança sempre fui incentivada nos esportes, do xadrez ao futebol. Mas, se como povo não nos “informamos” em maioria nem sobre política, que interfere nos assuntos triviais diários, o preço do pão por exemplo, imagina sobre assuntos menos importantes, como “poker não ser um jogo de azar”, mas um esporte mental, reconhecido como disciplina em diversas universidades pelo mundo.

É sempre a minha cara essa necessidade de frisar, porque esse é o principal motivo que me mantém no esporte, mesmo com tanta gente que amo torcendo o nariz.

Essencialmente, é preciso estar pronto para viver! Se somos atletas, independente de quanto colocamos na mesa, o nosso foco deve ser a competição, e precisamos ser sinceros com aqueles que nos cercam, e presentes também, pois ninguém é vencedor sem carinho e amor!

Aqueles que entram em nossas vidas como namoradxs precisam saber onde pisam, como podem ajudar-nos, de que forma suas ações impactam em nosso jogo e, por consequência, em nossas vidas. Da mesma forma, precisamos ter empatia, pois da mesma forma que não é todo jogador de poker que se torna um atleta, nem toda expectativa de parceirx é alguém que se sentiria bem vivendo o nosso modelo de vida ou a parte dele que revelamos, já que todas as relações são constituídas de máscaras sociais em maior ou menor grau.Você nunca saiu com seu par mesmo sem querer, só para agradar? Isso é usar uma máscara, por mais que seja uma prova de amor e interesse na pessoa.

Se nossos parceiros nos amam o suficiente, se adaptarão à rotina de chegarmos 04 da manhã todas as quartas-feiras, porque é o dia que tem "aquele" torneio ou mesa interessante, ou mesmo por precisar ficar algumas horas sem acessar o whatsapp, ou sair de um lugar para outro sem informar exatamente que o fará. Se os amamos o suficiente, fazemos com que nosso lifestile impacte o mínimo possível a vida delxs, tanto através do diálogo franco e sensível, como do nosso poder de antecipação, para que se o façamos, que seja de forma positiva, agregando valor. Vocês treinam esse poder de antecipação na vida real, né?

Para alguns, essa idéia pode parecer um grande desafio ou mesmo utopia, mas é a realidade essencial quando nos apaixonamos por alguém que não possui exatamente o perfil de um “amor de atleta” e queremos ter paz, ou mesmo para blindarmos nossos “relacionamentos perfeitos” das aventuras da vida, que pode cheia de imprevistos e com um river batendo 2 cartas.

Já dizia um jogador consagrado: Priorize suas relações! Mas alguém que entra em relações sem ponderar bem essas três questões fundamentais que levantei, será muitas vezes obrigado a dedicar tempo extra a esta relação de qualquer jeito, mas não para cultivar bons momentos e lembranças boas, que podem ser o combustível extra num momento de desafios, e sim para aparar arestas, negociar pontos de vista, discutir questões saturadas e, para um jogador de poker, cuja regra chave deve(ria) ser sentar-se às mesas apenas quando bem emocionalmente, este é um péssimo cenário!

Um cenário desgastante emocionalmente! Principalmente se associado com a possibilidade real e majoritária de perder nas mesas jogando com esse mindset "comprometido". Tilt! Tilt! Tilt!

Por outro lado, ter alguém que não apenas compreende as nuances do esporte (mesmo que não o pratique), mas que minimamente se interessa quando você compartilha algo e vibra junto, realizando críticas com empatia e ainda ajudando a fazer acontecer, mesmo que com uma massagem nos ombros durante um momento decisivo e disputado durante alguma viagem de jogo e lazer nos fins de semana, ou “só compreendendo” mesmo... Isso faz toda a diferença entre ser e não ser feliz! Bem como seu planejamento e compromisso em tornar essas viagens como apenas do casal, se assim for melhor para ambos, e cabe a você como jogador de poker usar o "feeling" para perceber quando é possível e viável juntar as duas coisas ou reservar tempo para as viagens do poker sem a presença de terceiros.

O maior interessado é sempre você, pois é você que está ou deveria estar no controle da sua vida. O nome disso é sustentabilidade da sua carreira e da relação.

De qualquer forma, considero que a conta é mais ou menos essa: é melhor ficar só na razão de dois para um que envolver-se com uma pessoa que não tenha esse mindset amadurecido ou essa disponibilidade mínima de abertura para o diálogo, negociação, adaptação, busca por desenvolvimento pessoal conjunto, fuga da zona de conforto emocional.

Uma relação sentimental exige que saiamos fujamos continuamente do comodismo e, sem esse mindset, um atleta mental terá muito compremetimento de sua carga emocional, que poderia bem ser deslocado para o tempo em estudo, repouso ou ação nas mesas, sem falar o desgaste do tilt.

"Ai, que louco! Priorizar um jogo a um amor?"

Não mesmo! Priorizar o ato de estudar e dedicar-se a um hobby que curte, ou mesmo a um esporte de alto rendimento, que perder tempo brigando (o clima é de briga nunca de "estamos só conversando", não sejamos hipócritas!) em uma relação só para dizer que está junto e que tem alguém, porque os níveis de respeito, tolerância, confiança, entre outros valores são pobres, pura fachada! Quem quer ser um dia um jogador vencedor no poker ou em qualquer outro esporte mental precisa pensar assim. Quem quer viver minimamente em paz, mesmo com uma profissão comum, também!

Agora faça uma projeção de onde você quer chegar neste esporte e adapte seu foco de acordo ao neu nível de prioridades. Se quer apenas jogar poker bem quando estiver passeando por Monte Carlo e tirar uma onda de azarão do dia, ok. Estude silenciosamente por uma década e talvez a variância te coloque em posição de executar sua meta.Se quer algo a mais, terá que dar algo a mais, como em qualquer coisa que nos metemos a fazer.

De qualquer forma, você vai sofrer menos desistindo de uma relação ruim (para as suas expectativas pessoais, por isso exige uma conversa sincera consigo!) logo nos primeiros passos, que deixar a "vida levar" por carência ou para ir vivendo o que for aparecendo, porque é em cada passo em falso que se dá que uma hora o problema chega e, quando você viu, já tem três meses que não estuda suas mãos ou joga poker com a pegada que precisa para bater suas metas anuais, por mais medíocres que elas sejam. E todo esse transtorno só porque você está sem cabeça por causa dx namoradx!

É a sua trajetória como atleta e, se você é realmente um (seja franco!), deve saber que só vai dar certo ao seu lado alguém que ande de mãos dadas, sem a necessidade de precisar casar precocemente para ter segurança emocional e sem deixar o outro ficar para trás, por estar mergulhado em individualidades ou caminhando por trilhas onde não é confortável ir.

Da mesma forma que um jogador de poker precisa saber o momento certo de ir "all-in ou fold", precisa aprender como ser humano a dizer "sim e não"!

Na pouca interação que tive com outras jogadoras sobre esse assunto – namoros – vi um pouco de tudo. Desde maridos contribuindo em suas carreiras como coaches e algumas vezes tiltando-as nos intervalos ou momentos de troca de mesa, com críticas brutas; outras de grande aptidão deixando as mesas por cumplicidade a seus cônjuges ou dedicação a outras atividades laborais; até a ternura dos que seguram o filho dorminhoco nos braços, alternando torneios e festejando as pequenas vitórias e os grandes aprendizados, porque no clube de poker a regra é clara: Somos sempre todos como uma grande família, por isso não é muito legal ir pouco, tem que ir de vez em quando, algo que há tempos não faço. É tempo de voltar a ir e reencontrar os amigos!

Também vi meninas irem para as mesas com sangue nos olhos, só para mostrar que também podiam "meter fichas" depois de algum desentendimento conjugal, e vi vibrações quando os "marmanjos" caiam e elas seguiam firmes em seus torneios! Pura bobagem, mas é por essas coisas que dizemos que o poker é um jogo social e de informação.

Tudo isso apimenta o cenário das mesas presenciais e não pode ser sentido no universo "frio" das estatísticas do poker online, ou mesmo das cenas selecionadas para a tv, onde o avatar do jogador, ainda que seja o Negreanu, é só uma porção de decisões tomadas com uma imagem pré-fabricada para vencer.

Que louco, né? Para uns é trabalho, para outros diversão. E todos cantam juntos em dias de comemoração. Até rimou... Mas até para rimar é preciso "boa vontade"! Talvez esse o grande segredo para ser feliz no jogo e no amor.